© Foto de Robert Capa. Imagem que compõe o livro “Ligeiramente fora de foco”.
Publicado pela primeira vez nos EUA em 1947, a editora Cosac Naify está lançando no Brasil um livro com fotografias feitas por Robert Capa durante a Segunda Guerra. O livro intitulado “Ligeiramente fora de foco” é um relato que combina diário pessoal, memorialismo e crônica sobre a participação do fotógrafo como correspondente na Segunda Guerra Mundial, entre 1942 e 1945. A edição ilustrada é traduzida por José Rubens Siqueira e traz prefácio de Cornell Capa, irmão mais novo de Robert e introdução de Richard Whelan, historiador da cultura e biógrafo do fotógrafo. A quarta capa é assinada pelo jornalista Hélio Campos Mello, que cobriu, entre outras, a Guerra do Golfo, em 1991, e chegou a ser preso no Iraque. Robert Capa sonhava, na verdade, em ser escritor. E embora, devido às circunstâncias, tenha alcançado fama mundial utilizando como meio de trabalho a câmera, não surpreende que tenha obtido êxito literário com Ligeiramente fora de foco. O volume tem início quando Capa é convidado pela revista Collier’s para fazer registros do combate na Europa. Então radicado em Nova York, ele era uma figura em ascensão no meio fotográfico por seu trabalho durante a Guerra Civil Espanhola. Nesse período, realizou aquela que talvez seja sua mais conhecida (e polêmica) imagem: a de um homem no exato momento em que é baleado – até hoje não falta quem sugira que a cena foi montada. Ligeiramente fora de foco chama atenção pelo tom leve empregado pelo autor. Trata-se, a bem dizer, de uma comédia de erros em plena batalha, desde a bebedeira com um figurão da embaixada britânica para conseguir permissão para viajar para a Europa até o tenso desembarque na Normandia ao lado das tropas americanas, no Dia D. Na prosa fluente e cativante de Capa – bon vivant assumido – cabem episódios amorosos, porres, jogos de baralho e a relação com celebridades como Ingrid Bergman (com quem manteve um caso), John Steinbeck e Ernest Hemingway, a quem o fotógrafo, como quase todos que eram íntimos do romancista, chamava de Papa. O forte do livro, no entanto, está nos relatos de combate. Não foram poucas as vezes que o húngaro colocou a vida em risco para chegar à foto perfeita (morreu após pisar em uma mina terrestre, em 1954). Ainda assim, mantinha princípios éticos e estéticos louváveis, e não fazia uso da câmera para eternizar violência fácil e gratuita. Pelo contrário: detestava chegar às cidades logo após os aliados derrotarem os alemães, por exemplo – ou seja, depois que se deu a batalha em si. “Fazer fotografias de vitória é como tirar fotos de um casamento na igreja dez minutos depois que os recém-casados foram embora”, anota. E conclui, dando prosseguimento à excelente metáfora: “A cerimônia em Nápoles tinha sido muito breve. Um pouco de confete ainda brilhava em meio ao chão sujo, mas os festeiros de barriga vazia tinham se dispersado depressa, já imaginando o quanto a noiva e o noivo iam brigar no dia seguinte”. Ligeiramente Fora de Foco - Autor: Robert Capa. Tradutor: José Rubens Siqueira. Editora: Cosac Naify (296 páginas, R$ 60). Fonte: Cosac Naify